Antes de tudo, Sebastião Rodrigues é um pintor. Um pintor brasileiro por vocação e talento que como tantos outros bravos artistas nacionais, venceu pela persistência e, sobretudo, muito trabalho, porque sem ele não há talento que se concretize. Principalmente para quem veio de longe, no seu caso, da Amazônia, vencendo barreiras de culturas e costumes para se impor num centro mais avançado, como o Rio de Janeiro, onde aprimorou seus conhecimentos através de estudos e observações que, posteriormente, incorporariam de maneira pessoal ao trabalho.

Sebastião Rodrigues tem ainda a ousadia de acreditar na pintura, ou seja, dedica-se às formas e cores com excepcional denodo, do modo mais tradicional quando, atualmente, as atenções da crítica volta-se quase  exclusivamente para os experimentos que vão das instalações aos conceitos. Não que ele não seja artista contemporâneo. Claro que é, como qualquer outro que produz nos nossos dias. Infelizmente, parece que os chamados artistas da chamada vanguarda, e igualmente alguns críticos, não pensem assim, preferindo excluí-lo da contemporaneidade.

Ledo engano. Arte é arte e não somente o que alguns poucos acham que seja arte, parafraseando, aliás, a decantada anti-arte de Marcel Duchamp do início do Século XX. Arte é criação mágica e a ela Sebastião Rodrigues responde com a excelência de sua pintura, que extrapola várias linguagens, da figuração à abstração, com o objetivo de valorizar o vocabulário plástico.

Criar é expandir mundos íntimos em formas e cores. É saber desenhar como o começo de tudo, como bem acentuava o grande Mário de Andrade num dos capítulos mais importantes do livro "Aspectos das Artes Plásticas do Brasil".

Citamos o desenho na obra de Sebastião Rodrigues justamente para destacar o ímpeto com o qual ele se dedica à criação pictórica, ao contrário de outros artistas, também pintores, que ultimamente têm dado pouca importância a esse aspecto gráfico. No entanto, é a partir do desenho, a base de toda a pintura do pintor amazonense. Nada mais esteticamente correto.

E do que nos fala a pintura de Sebastião Rodrigues? Do homem, principalmente. O homem na sua essência como Ser, porém fragmentado ao meio do mundo moderno. Não numa linguagem bidimensional como conhecemos a pintura, pois ele usa com propriedade outras tantas que possam enriquecer sua proposta não somente nas qualidades técnicas mas, igualmente,  na  ousadia de querer expandir-se na tela em formatos pouco comuns, como os chassis nada convencionais, conquanto que os espaços e mesmo os cortes vazados, sejam uma extensão da obra. Na verdade, ele é um pintor de grandes dimensões, um impetuoso gestualista que expande largas pinceladas na superfície da tela, unindo num mesmo trabalho o relevo e a linearidade de forma plena, da mesma  maneira  que une linguagens plásticas díspares num todo, tornando-as quase inseparáveis no que nos propõe como artista.

Expondo individualmente desde 1978, já tendo percorrido salões de arte e mostras coletivas, premiações e receptividade critica, Sebastião Rodrigues, como todo artista talentoso e inteligente, abre sua obra à sensibilidade do espectador.

Não há como não se render ao que ele com tanta garra nos propõe.

Geraldo Edson de Andrade
Da Associação Brasileira de Críticos de Arte // Novembro 2002

 

ABSTRAÇÕES DE SEBASTIÃO RODRIGUES

... É uma pintura, trabalhada, não somente pela garra do autor, como também pelos recursos de linguagens. Traços, linhas, manchas, gesto, figura, estão nas suas telas a serviço de uma pintura forte, vigorosa, expressiva sobretudo, que parece querer romper com os limites impostos pela tela.

Sebastião Rodrigues transcende muitas vezes o formato tradicional da tela para impor nova dimensão à sua proposta, qual seja a de estabelecer parâmetros com a expressão pictórica, sem esquecer os elementos gráficos que a compõe.

Sua pintura, contudo sempre se destacou pelo ritmo, pelo arrebatamento que dela exala, pela sinceridade da proposta. Não fosse ele um pintor jovem, de formação e linguagem própria.

Geraldo Edson de Andrade
Crítico de Arte // junho de 1995